Cinema Cascais: Ciclo Policial

Data
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Gratuito.
Local[ + info ]
NomeCentro Cultural de CascaisMorada

Av. Rei Humberto II de Itália
2750-800 Cascais

FreguesiaCascais e EstorilGeolocalização38.694162,-9.421404 (abrir mapa)
Centro Cultural de Cascais
Descrição

O tema central do policial é o delito, a acção criminosa que quebra a ordem social e viola as regras da sociedade a que pertence o autor desse comportamento desviante: a maior parte das vezes o responsável é desconhecido e a ordem é restabelecida quando um agente da lei – advogado, detective privado ou polícia – consegue desvendar a trama da malfeitoria. A tipologia do romance policial foi definida por Tzvetan Todorov em termos tais que pode ser transposta sem dificuldade para a tipologia do seu homónimo cinematográfico:1 há, por exemplo, o “filme-enigma”, em que a história do delito pré-existe à consecução narrativa e as personagens, mais do que agir, comunicam informações úteis ao fim da investigação: veja-se Rebecca (1940), de A. Hitchcock.

O segundo tipo de narrativa indicado por Todorov corresponde ao “film noir”, em que a história do delito se interpenetra com a da investigação: não há um crime pré-existente e as investigações têm início apenas quando ele ocorre, que pode naturalmente ser repetido e pôr em risco a vida de uma ou várias personagens: veja-se Strangers on a Train, ainda de A. Hitchcock. O terceiro tipo, a que Todorov atribui a designação de “romance-suspense”, funde os dois tipos e é, efectivamente, também no cinema, o mais frequente: o delito antecede o relato, como no “enigma”, mas há outros delitos que acompanham o decurso da investigação, como no “noir”, e a primeira preocupação da narração não tem tanto que ver com as premissas, que são, aliás,  explicadas, como com os acontecimentos que se desenrolam diante dos olhos do espectador: veja-se The Maltese Falcon, adaptação do magistral romance homónimo de D. Hammett, ou The Big Sleep, adaptação do romance homónimo de R. Chandler, dois dos três mais brilhantes cultores do “roman noir” clássico (o terceiro é Ross McDonald).   

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Informações: 214 815 660 e geral@fdl.pt
Organização:  Fundação D. Luís I, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais

2 NOVEMBRO | 18H00

Relíquia Macabra/ The Maltese Falcon

(1941) Realização: John Huston | Intérpretes: Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sidney Greenstreet, Ward bond, Elisha Cook Jr., Jerome Cowan, etc. | 100 minutos. Legendado em português.  

Adaptação de uma peça teatral que por seu turno se baseava no clássico romance homónimo de Mary Shelley, instituiu, a par do Dracula de Tod Browning saído no mesmo ano, o modelo do horror movie e deu origem à “parada de monstros” que tanta glória trouxe à Universal. Maravilha “pré-código” e um dos apogeus da arte de Whale, cineasta de “deuses e monstros”, fez do inultrapassável Boris Karloff (no papel, pretendido pelo rival Bela Lugosi, assustador e tocante da criatura inocentemente infantil, mas capaz de uma raiva animalesca) uma estrela instantânea – e se a personagem é parte do nosso imaginário colectivo, faça-se a devida vénia aos ainda hoje fantásticos efeitos de maquilhagem de Jack Pierce – e inventou arquétipos como o cientista egomaníaco e louco e o seu assistente corcunda. Uma obra visualmente sumptuosa, percorrida por uma veia subterrânea do humor negro típico da poesia subversiva do realizador e que apenas se tornaria mais evidente na ainda mais estarrecedora sequela, Bride of Frankenstein. Venham todas as cópias, imitações e paródias que vierem, deste filme exclamaremos sempre: “It’s alive!”.

2 NOVEMBRO | 21H00

À Beira do Abismo/The Big Sleep

(1946) Realização: Howard Hawks | Intérpretes: Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Ridgely, Martha Vickers, Dorothy Malone, Peggy Knudsen, Elisha Cook Jr., etc. | 114 minutos. Legendado em português.

Trata-se de uma “estória” muito complexa, realizada com grande vivacidade (sobretudo devido aos diálogos de William Faulkner e Leigh Brackett, à fotografia de S. Hickox e à banda sonora de Max Steiner, que compõem juntos inúmeros quadros dificilmente articuláveis numa primeira leitura do filme), em que os próprios actores declararam haver trabalhado sem ter bem presente o argumento, e Chandler observou alterações claras em relação à sua obra, sem contudo deixar de manifestar uma opinião positiva. The Big Sleep, que teve uma sequela interessante realizada por Michael Winner e interpretada por Robert Mitchum, já faz parte da categoria dos filmes de culto e algumas cenas (o encontro de Marlowe com o general no calor sufocante da estufa, o diálogo carregado de subentendidos entre Marlowe e a livreira), mais até do que todo o filme, pertencem, para os inúmeros admiradores de Bogart, à maravilhosa lenda do cinema.

9 NOVEMBRO | 21H00

Os Incorruptíveis Contra a Droga/ The French Connection

(1971) Realização: William Friedkin | Intérpretes: Gene Hackman, Fernando Rey, Roy Scheider, Tony Lo Bianco, Marcel Bozzuffi, Frederic De Pasquale, Bill hickman, Ann Rebbot, etc. | 110 minutos. Legendado em português.

Quando estreou, o filme teve um êxito de bilheteira colossal e ganhou dois Oscars, atribuídos ao realizador e ao actor principal, mas desencadeou uma violenta campanha na imprensa, quer na América (por razões de legalidade social), quer na Europa (por razões ideológicas). Recuperado pelos Cahiers du cinéma, Friedkin passou a ser considerado como um dos melhores profissionais hollywoodianos, não obstante os seus frequentes insucessos, com obras centradas no retrato de um homem solitário e esquivo, sempre intimamente justo. The French Connection oculta, sob uma patine documental, a construção tradicional da história de gangsters, com a relativa mitificação do mau. As tonalidades quase hiper-realistas da ambientação são em grande parte atribuíveis à fotografia (panorâmica, Gevacolor) de Owen Roizman e à montagem, nervosa e compacta, de Jerry Greenberg.

23 NOVEMBRO | 18H00

A Fúria da Razão/Dirty Harry

(1971) Realização: Don Siegel | Intérpretes: Clint Eastwood, Harry Guardino, Reni nSantoni, John Vernon, Andrew Robinson, John Larch, John Mitchum, etc. | 102 minutos. Legendado em português.

Poesia da violência, mas sem estar dependente da violência, foi sempre o que Siegel tentou fazer, i. e., ser uma espécie de poeta das contradições morais do herói solitário que quer fazer valer a justiça numa sociedade que se mostra indolente perante o sofrimento do cidadão comum: poeta das imagens que se alimentou na escola de Walsh, Curtiz, Wood, Litvak e Hawks, mestres de quem foi assistente de realização na década de 1940 e que, como ele, adquiriram destreza fílmica a trabalhar em diferente géneros. Destas influências positivas, Siegel soube retirar a maneira de articular film noir e western, articulação que em Dirty Harry entregou ao cuidado do inspector Callahan, personagem em que se perscrutam os claro-escuros do monomaníaco caçador de recompensas idealizado por Anthony Mann em The Man from Laramie (1955),  o vingativo perseguidor de índios retratado por John Ford em The Searchers (1956) e, muito particularmente, o xerife atraiçoado pelos concidadãos concebido  por Fred Zinnemann em High Noon (1952).

Claramente baseado nestes impressionantes protagonistas, Harry Callahan, não é, no entanto, uma mera réplica (ou simulacro) deles, mas a sua evolução metropolitana: o pistoleiro que nos idos de 1870 aplicava a justiça nos territórios adquiridos à custa do esbulho das diversas tribos índias, passa a impor, em 1971, a lei numa cidade muito peculiar, San Francisco, parte integrante dos Estados Unidos capitalistas, a nação mais organizada e estratificada do século XX, onde a justiça está transformada num sistema burocratizado e improdutivo. E não é despiciendo assinalar que, para dar ainda mais consistência ao seu herói, Siegel soube tirar o máximo partido da experiência que Clint Eastwood acumulou em todos os westerns spaghetti que interpretou sob a barroca direção de Sergio Leone, além do ensaio que foi ter vestido a pele do protagonista de Coogan’s Bluff (1968-69), filme realizado pelo próprio Siegel.

23 NOVEMBRO | 21H00

O Profissional/The Driver

(1978) Realização: Walter Hill | Intérpretes: Ryan O’Neal, Bruce Dern, Isabelle Adjani, Ronee Blakley, Felice Orlandi, Matt Clark, Joseph Walsh, etc. | 91 minutos. Legendado em português.

Não faltam motivos de interesse (e apreço) a este conciso e directo filme de Walter Hill (outro cineasta que a crítica portuguesa demorou a reconhecer como um auteur), que prescinde de floreados e acessórios irrelevantes. Ryan O’Neal é um condutor profissional que presta os seus serviços em assaltos e Bruce Dern um detective cuja obsessão é capturá-lo. Isabelle Adjani é uma bela jovem, como convém, que se vê envolvida nos acontecimentos. O realizador, como noutros filmes seus (veja-se o magistral The Warriors, de 1979, adaptação do romance homónimo de Sol Yurick) situa o espectador no meio de um duelo (uma teoria de choques), em que praticamente não há diálogos, as personagens dispensam nomes e contam com o pano de fundo ideal para que as acções projectadas na tela sejam suficientemente sugestivas. Esta austeridade nas formas não empana o interesse do modelo narrativo ou a construção dos papéis principais. A trama simples, o típico confronto entre ladrão e agente da lei, é a demonstração de que menos é mais quando se sabe o que se quer no acto de contar uma história, não sendo possível deixar de referir as notáveis sequências de perseguições de automóvel. Eis, portanto, um filme secreto, fascinante, austero, poético e, note-se, bastante existencialista. Houve quem lhe atribuísse a classificação de film noir bressoniano que deixa o espectador sem fôlego: uma referência de tal modo essencial que foi copiada, plagiada e admirada vezes sem conta. Atrás da máquina de filmar e sentado diante da máquina de escrever, estava um jovem e talentoso argumentista e realizador formado na escola de Hawks, Ford, Hitchcock, Lang e Walsh, para falar dos americanos e europeus americanizados, mas também na de Renoir, Becker, Melville e, muito especialmente, no seu mestre reconhecido, Robert Bresson, a quem poderia ter dedicado este filme como outro Melville, este Herman, fez com Hawthorne, colocando antes do genérico esta frase: In token of my admiration I inscribe this movie to Robert Bresson.

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